26 de agosto de 2013

Dia 232 - O Meu Cão Morreu

26 de agosto de 2013
(blog escrito no dia 21 de Agosto 2013) 
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Há 10 dias atrás morreu o Bernard - um amigo que fez por mim e pelo mundo mais do que quaisquer palavras possam descrever.
Hoje, 10 dias depois, morreu o meu cão, Pastor.

Todos os anos, por esta altura, eu, o meu pai, a minha mãe, a minha irmã e o Pastor fazemos uma viagem de Lisboa para o Caramulo para passarmos uns dias na casa da minha avó.

O Pastor nunca gostou de andar de carro: fica sempre um pouco stressado, a arfar a viagem toda. Ontem, durante a viagem, foi um dia de muito calor (40 graus a certa altura) -- e o Pastor, tendo 11 anos, passou muito mal, principalmente na última meia hora até chegar a Seia.

Eu estava em Seia já há uns dias, e o plano era os meus pais irem-me lá buscar e depois seguiamos viagem para o Caramulo.

Quando nos encontrámos em Seia disseram-me: "O Pastor não está nada bem".

Nunca o tinha visto naquele estado: Deitado de lado na mala da carrinha, com a boca aberta, com a lingua a tocar no chão e a arfar imenso. Sentia-se que estava quente, e era claro que estava em sofrimento. Segundo a minha irmã, ele só ficou assim durante os últimos 30 minutos da viagem - até então estava normal.

Tirámo-lo da mala, molhámo-lo para tentar arrefecer, mas continuava na mesma: não se levantava, nem se mexia - somente os olhos.

Felizmente havia um veterinário por perto. Levámo-lo para lá e com oxigénio, soro e gelo conseguimos estabilizar a sua respiração e temperatura (estava com 42 graus de febre inicialmente).
Mesmo estabilizado não se queria mexer -- só mexia a cabeça e os olhos. Parecia que estava cheio de sono. Ele normalmente dormia durante a tarde, e durante a viagem não dormiu nada. Pensámos que quisesse dormir -- tanto que se colocou na sua posição de dormir.

Decidimos deixá-lo no veterinário para não arriscarmos no resto da viagem, pois não queriamos que acontecesse o mesmo.

A doutora que o acompanhou desde o início esteve com ele praticamente a noite toda e disse que ele se manteve na mesma: calmo, mas sem dormir. Fez diarreia até que depois as fezes saiam já com sangue. Morreu de manhã. A autósia revelou que morreu de coagolação intestinal dissiminada. Segundo a doutora, devido ao stress, ansiedade e as temperaturas elevadas desencadeou este processo que posteriormente levou a uma paragem respiratória e cardiovascular.

É triste. Fico triste quando penso que não vou poder brincar e passear mais com ele.

A morte dele representa a morte de uma parte de felicidade em mim.
Esta frase revela muito...

Todas as mortes de pessoas ou animais com os quais criámos um relacionamento revelam sempre o tipo de relacionamento que com elas tinhamos e, como consequência, a morte desse relacionamento.

É isto que por sua vez revela o "vazio" que sentimos: com a morte da pessoa/animal morre também o relacionamento e como tal revela-se o "vazio".

O "vazio" que sinto é um vazio de felicidade -- era isso que o Pastor era para mim: Um "pilar de felicidade" na minha vida.

Hoje sou menos feliz -- e vejo que só eu posso criar para mim mesmo essa felicidade que ele representava.

Para além das lições de paciência, calma, partilha, apoio (etc) enquanto vivo -- a maior lição que ele me deu foi quando morreu: A lição de que eu tenho de ser feliz por mim mesmo, sózinho. Se a minha felicidade está dependente de factores externos (tais como relacionamentos com pessoas, animais, bens materiais etc...) então a minha felicidade pode a qualquer momento ser desestabilizada.
Muitos verão o que eu disse como algo "egoista", como se "eu não tivesse coração" ou "sentimentos". Mas então eu pergunto: Como podem os sentimentos por certas pessoas/animais serem válidos quando  esses mesmos sentimentos não são capazes de serem partilhados por Todas as pessoas/animais? Se não formos capazes de amar todas as pessoas/animais, como pode o amor que se sente por um numero limitado de pessoas/animais ser válido? Porque é que aceitamos que o amor que dizemos ter/sentir seja limitado?
Não será que o Amor Real deva ser algo incondicional e ilimidado?
Querer/desejar que uma certa pessoa/animal faça parte da nossa vida para que "sejamos felizes" não é na verdade algo egoista? "Pode acontecer a pior das atrocidades a todas as pessoas/animais, excepto à minha família e amigos, pois se acontecer, eu fico na merda." --> não será isto verdadeiro egoismo?

Eu não escrevo este blog para "afogar as minhas mágoas": Isso era permitir que a sua morte fosse em vão.

A morte dele poderia ter sido evitada se a viagem não tivesse tido lugar -- desta perspectiva foi uma "morte estúpida". Apesar da idade, ele estava bem de saúde.

Mas agora vejamos: quantas mais mortes de pessoas (já para não falar de animais) são "estúpidas"?

O Pastor morreu. É triste para mim e para a minha família.
E os milhões de pessoas que também hoje morreram de fome? E de saneamento inadequado? Mais Estúpido que estas mortes não há. Ninguém diria que o Pastor se iria dar mal nesta viágem, pois todos os anos a fazemos e ele sempre se deu bem.
Por outro lado todos nós sabemos que sem nutrição adequada o resultado é a morte.
Esta "morte estúpida" do Pastor mais uma vez mostra-me como todos os dias permitimos que se dêem "mortes estúpidas".

A tristeza que eu sinto devido à sua morte repete-se todos os dias nos país e familiares das crianças que todos os dias morrem de "mortes estúpidas". Lá por eu não sentir nada por essas crianças para além de pena (porque não existe qualquer relacionamento/apego por essas crianças) não quer dizer que as suas mortes sejam "insignificantes".

Porque é que permitimos que estas "mortes estúpidas" tenham lugar?
Porque é que ficamos tão tristes quando um familiar/amigo morre mas no entanto é-nos indiferente quando milhões de "estranhos" todos os dias morrem? Porque é que não estamos a colocar estas questões óbvias?

Não será isto verdadeiro egoismo? Sim, porque só quando o nosso mundo muda é que sofremos.

Se a morte do Pastor só me deixar triste, então a sua morte terá sido em vão.

Se a sua morte me der força para eu criar a felicidade que me falta e, principalmente, se me der a força para me dedicar "de corpo e alma" a este processo de criar um Mundo Melhor para Todos no qual as "mortes estúpidas " não ocorrem --> então sim, a sua morte não terá sido em vão.


Obrigado Pastor -- pela tua companhia e principalmente por aquilo que me ensinaste e me fizeste ver.

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