18 de novembro de 2013

Dia 237 - Resposta à Raquel Valera relativa ao Rendimento Básico Incondicional

18 de novembro de 2013

Raquel, primeiro que tudo gostava de lhe dizer que admiro e respeito muito o seu trabalho - para mim é claro que a sua intenção é a de criar um mundo justo, do qual nos possamos orgulhar de o ter construído e fazer parte.
desteni technotutor techno tutorEu sou Português, de 27 anos, músico. De História sei muito pouco, por isso o que se segue é baseado na minha experiência. Tenho-me vindo a aperceber que em senso comum e com um entendimento claro das palavras e dos seus significados somos capazes de chegar a conclusões bem fundamentadas.

Eu sou a favor de um Rendimento Básico Incondicional, apesar de que, a meu ver, a ideia que o constitui deve de ser melhorada para ser mais apelativa não só à população em geral mas também a historiadores, polítos, economistas etc. Assim sendo, é desta perspectiva que eu escrevo esta resposta à sua posição relativa ao RBI.

Primeiramente gostava de tocar no ponto do Princípio fundamental do RBI. É necessário ter em conta este ponto de senso comum: De acordo com o sistema socio-económico que temos hoje em dia, é obvio que aquele que não tem dinheiro não tem acesso àquilo que necessita para Viver. A declaração dos direitos humanos diz que todos nós temos o direito à vida -- mas como é que temos esse direito à vida se não temos direito ao dinheiro? Se "Dinheiro = Vida" então parece-me obvio que eu tenha o direito a ter dinheiro, sempre, suficiente para eu viver. Logo, o RBI é uma forma de garantir este direito humano básico: o direito à Vida.
Talvez a sua resposta ao que disse seria: "Com o direito ao trabalho e com uma rendimento adequado as pessoas teriam o seu direito à vida garantido" -- sim, é correcto, mas gostaria que considerasse o seguinte: Hoje em dia temos máquinas que trabalham por nós, 24h por dia. Nos super-mercados, por exemplo, temos máquinas de check out que, ao olhos de muitos, têm tirado postos de trabalhos a pessoas -- no entanto, podemos ver as coisas de outra maneira: Essas máquinas criam a possibilidade que o ser humano tenha tempo para ir fazer outra coisa qualquer mais digna -- digo "digna" porque não é vida para ninguém andar a passar códigos de barra à frente de um lazer durante 8 horas... Nunca uma criança disse "eu quando for grande quero trabalhar numa caixa do jumbo..."
Eu gostava de perguntar: de que servem todos os avanços tecnológicos da humanidade se não para proporcionar ao ser humano tempo para que este possa fazer aquilo que só um ser humano consegue? Porque é que haveremos de ter um batalhão de pessoas a arrancar batatas da terra quando podemos ter uma máquina controlada por uma pessoa a fazer o mesmo trabalho num tempo muito mais reduzido (mais eficaz)? Será que essas pessoas não têm o direito à vida porque a máquina está a fazer o trabalho "delas", ou será que a máquina está na verdade a dar às pessoas a oportunidade de Viver, no verdadeiro sentido da palavra, ao disfrutarem do tempo livre que têm para, por exemplo, se melhorarem como seres humanos, ao estudar - por exemplo.

Temos de considerar o mundo actual -- não podemos olhar para o agora como se ainda fosse antes da revolução industrial.
Se todos temos o direito ao trabalho, então a definição de trabalho tem de ser revista: porque, por exemplo, uma mãe que esteja SEMPRE disponível para o seu filho durante os primeiros 7 anos de vida - de forma a dar-lhe a melhor educação possível (o que implica que, por exemplo, a mãe necessita de tempo para se melhorar como ser humano) - essa mãe está a fazer um trabalho importantíssimo... a meu ver, o trabalho mais importante do mundo!

Estar 9/10 horas num call centre não é trabalho - é exploração humana que só é possivel devido à necessidade de sobrevivência: Sem trabalho não há dinheiro, sem dinheiro não há vida -- logo as pessoas sujeitam-se a fazer qualquer tipo de trabalho, mesmo que só pague o mínimo para sobreviver. Se essas pessoas recebessem um RBI, será que elas iam continuar num call centre? Não (a não ser que pagásse muito bem). E sem pessoas para fazer o trabalho de escravos, então o negócio teria de mudar de forma a se tornar (mais?) humano.

Isto leva-me a um outro ponto que para mim não faz sentido e que gostava que me esclarecesse, se possível. A Raquel diz "Uma massa de gente com o RBI, neste modelo de produção concorrencial, é uma chantagem permanente sobre quem está empregado para aceitar piores condições laborais. O RBI, tecnicamente, aumenta a concorrência entre quem trabalha e não a solidariedade."

Muito sinceramente, eu não consigo perceber... A meu ver o resultado seria exactamente o oposto: as condições de trabalho e a remuneração teriam de melhorar. Se eu ganhasse £1000 de RBI por mês para viver e me oferecessem £1000 para trabalhar num call centre, mais valia ficar em casa a pintar, a ler livros ou a estudar... Porque é que eu me hei-de sujeitar a falar com estranhos que não querem falar comigo tendo em conta que a minha sobrevivência não está em risco?

A concorrência que existe actualmente e que leva a que as condições de trabalho sejam más e a remuneração inadequada é o resultado da necessidade de sobrevivência.

"Opera-se assim um deslizamento ideológico em que o desemprego deixa de ser fruto de opções políticas e uma massa de gente é simplesmente vista como excluída ou miserável, quando sabemos que no sistema capitalista, e não há nenhuma tendência na academia que o negue dos liberais aos marxistas - os desempregados são parte da força de trabalho porque são eles que, ao existirem, pressionam os salários dos que estão empregados para baixo."

Exactamente: os desempregados "pressionam os salários dos que estão empregados para baixo" porque estão desesperados. Com o RBI as pessoas não ficam desesperadas -- pelo contrário, ficam com o poder de negociação quando se disponibilizam para trabalhar.

"Temos a produção em queda e não utilizamos toda a capacidade instalada nem utilizamos toda a força de trabalho (1 milhão e 400 mil desempregados em Portugal)"
Será que é necessário que TODA a gente trabalhe? Como sociedade, a que ponto é que queremos chegar? Como humanidade, qual é o nosso rumo? Será que o caminho que estamos a seguir é o resultado de um plano bem pensado em que todos nós concordámos -- ou será este o resultado de forças e ideologias passadas que a nós foram passadas sem que podéssemos concordar ou discordar? Será que este é o sentido da vida, a razão de viver: Trabalhar!? "Trabalhar por trabalhar" parece ser o "Santo Graal".

"De um lado temos pessoas a trabalhar até à exaustão, acumulando funções, tarefas, jornadas de trabalho longuíssimas e do outro desemprego."
Quanto dessa "exaustão"/"acumulação de funções/tarefas" são na verdade desnecessárias? E quanto desse "desemprego" não é tempo bem emprege em tarefas não remuneradas?

"Não há falta de trabalho, há uma distribuição incorrecta do trabalho. Na Banca querem despedir milhares de pessoas para substituir por trabalhadores precários, que ficam num call center 8, 9, 10 horas por dia um desastre social para os que são despedidos (o que vão fazer com 45 anos?) e para os que ficam dependentes de um trabalho torturante, num call center; formamos enfermeiros, o Governo diz-lhe «emigrem!» e ficamos com piores serviços de saúde; no Estado querem enviar para a reforma antecipada os que estão para os que ficam trabalharem por 2 (o recente balanço dos serviços da Segurança Social, por exemplo, dá conta de mais de 1000 postos de trabalho por preencher só nesse sector e ao mesmo tempo um número enorme de horas extraordinárias no mesmo sector); no Porto de Lisboa despedem-se trabalhadores e os que lá estão chegam a fazer 100 horas por semana, estilo padrão chinês de trabalho."

Concordo consigo -- e de certo que é capaz de mostrar os números que o provem: Não há falta de trabalho e há uma distribuição incorrecta do trabalho: enfermeiros mal pagos e sobrecarregados enquanto que outros parecem não ter escolha a não ser call centre é a evidência de um sistema absolutamente disfuncional. Professores, mal pagos, com turmas com mais de 30 alunos é norma -- enquanto que há tantos professores mortinhos para ensinar... As consequências? Alunos mal formados (devido à falta de condições) e professores com problemas de saúde física e psicológica.

Eu gostava de lhe pedir, Raquel, que olhasse para o RBI com outros olhos. Talvez seja capaz de ver uma forma de como este acabaria por beneficiar a sociedade, pois essa é a intenção do RBI, assim como a sua. Talvez seja capaz de sugerir alterações à ideia para que esta se torne mais viável, de forma a que não só garanta a sobrevivência de todos os cidadãos mas também que garanta que aqueles que trabalhem tenham melhores condições, para que o seu tempo de lazer seja verdadeiramente disfrutado ao máximo.

http://www.rendimentobasico.pt/

0 comentários:

Enviar um comentário

 
◄ Free Blogger Templates by The Blog Templates | Design by Pocket